Catarina, a Grande: O Reinado que Modernizou o Império Russo
Corte prussiana ao trono de São Petersburgo: Reformas, guerras e o Iluminismo que forjaram a Rússia de Catarina II.
Pontos Chave da História


Entre 1762 e 1796, uma princesa alemã nascida na obscura casa de Anhalt-Zerbst governou o maior império contíguo da Europa e o transformou numa potência capaz de ditar o destino de poloneses, tártaros e otomanos. Catarina II não herdou um trono: usurpou-o do marido, Pedro III, num golpe de Estado articulado em menos de uma semana. Sem uma gota de sangue Romanov nas veias, ela passou 34 anos costurando legitimidade com canhões, leis e mecenato cultural. O resultado foi um império 518 mil quilômetros quadrados maior do que encontrara — território equivalente à soma de França e Reino Unido somados — e uma burocracia que, pela primeira vez, olhava para o Ocidente não como ameaça, mas como modelo.
De Sofia a Catarina: a estrangeira que conquistou o trono
Sofia Frederica Augusta nasceu em 2 de maio de 1729 em Stettin, na Pomerânia prussiana (atual Szczecin, Polônia), filha do príncipe Cristiano Augusto, um general a serviço de Frederico II. Em fevereiro de 1744, aos 14 anos, foi levada à corte de São Petersburgo como candidata a esposa do herdeiro, o grão-duque Pedro. A menina sabia o que estava em jogo: aprendeu russo em tempo recorde, converteu-se à ortodoxia em 28 de junho de 1744 e adotou o nome Ekaterina Alekseevna, em homenagem à imperatriz Isabel, tia do noivo.
O casamento, celebrado em 21 de agosto de 1745, foi um desastre íntimo. Pedro III, admirador fanático de Frederico II da Prússia, humilhava a esposa em público e planejava repudia-la. Catarina, porém, teceu alianças na guarda imperial e entre a alta nobreza. Em 28 de junho de 1762 (9 de julho no calendário gregoriano), com a ajuda dos irmãos Grigori e Alexei Orlov, proclamou-se imperatriz na Catedral de Kazan. Pedro III abdicou e morreu dias depois na prisão de Ropsha — oficialmente de "cólica hemorroidária", versão que ninguém acreditou.
O projeto modernizador: do Iluminismo à máquina administrativa
Catarina cultivou correspondência com Voltaire, Diderot e d'Alembert, mas soube separar o salão do Estado. Sua obra legislativa mais célebre, a Nakaz (Instrução) de 1767, citava Montesquieu e Cesare Beccaria e propunha limitação da tortura e igualdade perante a lei. Enviada à Comissão Legislativa (1767–1768), que reuniu 564 deputados de todas as províncias, foi na prática esvaziada pelas resistências da nobreza — mas serviu de vitrine propagandística do "despotismo esclarecido".
O que ficou de concreto foi a Reforma Provincial de 1775. O império foi dividido em 50 gubernias (províncias), cada uma com governador, tribunais separados para nobres, burgueses e camponeses, e instituições de caridade. Em 1785, duas cartas complementares consolidaram a ordem social: a Carta da Nobreza, que isentou os aristocratas de impostos e serviço obrigatório, e a Carta das Cidades, que criou o estatuto de cidadão urbano e estimulou o comércio.
Entre as medidas de alcance real, destacam-se:
1764 – Secularização das terras monásticas, incorporando quase 2 milhões de camponeses ao tesouro do Estado.
1768 – Catarina vacinou-se contra a varíola com o médico inglês Thomas Dimsdale, num gesto simbólico de confiança na ciência.
1776 – Fundação do sistema de escolas públicas estatais, que em 1786 ganhou estatuto geral com escolas primárias e secundárias.
1782 – Criação da polícia urbana e da primeira regulamentação sanitária das cidades russas.
A expansão territorial e o novo mapa do Império
O reinado de Catarina foi o mais expansionista desde Pedro, o Grande. A Primeira Guerra Russo-Turca (1768–1774) terminou com o Tratado de Küçük Kaynarca, que deu à Rússia acesso direto ao mar Negro, o direito de proteger cristãos ortodoxos do Império Otomano e a independência do Canato da Crimeia. Na campanha, o marechal Pyotr Rumyantsev venceu em Kagul (1770) com 17 mil homens contra 150 mil otomanos, enquanto a esquadra de Alexei Orlov e Samuel Greig aniquilou a frota turca na Batalha de Chesma, na mesma noite de 6 para 7 de julho de 1770.
Em 1783, Grigori Potemkin anexou formalmente a Crimeia, fundando a base naval de Sebastopol. A Segunda Guerra Russo-Turca (1787–1792) foi selada pelo Tratado de Jassy, que consolidou a fronteira no rio Dniester. O assalto à fortaleza de Izmail, em 22 de dezembro de 1790, conduzido por Alexander Suvorov, tornou-se um dos episódios mais sangrentos da história militar russa: cerca de 26 mil otomanos morreram em poucas horas.
No Ocidente, a czarina participou das três Partilhas da Polônia (1772, 1793 e 1795) ao lado de Prússia e Áustria. A Rússia absorveu a Lituânia, a Bielorrússia e a Ucrânia ocidental, extinguindo o Estado polonês do mapa por mais de um século — decisão que ela justificou como necessidade de "conter a anarquia" da República das Duas Nações.
No extremo sul, Potemkin fundou cidades do zero em território conquistado ao Canato da Crimeia:
Kherson (1778) – estaleiro naval e porta do mar Negro.
Sebastopol (1783) – base da futura Frota do Mar Negro.
Odessa (1794) – entroncamento comercial que se tornaria o principal porto exportador de grãos.
Ekaterinoslav (1787, atual Dnipro) – planejada como capital administrativa do sul.
Cultura, educação e ciência: o Império como vitrine
Catarina entendeu o poder simbólico das coleções de arte e dos edifícios públicos. Em 1764, comprou o primeiro lote de 225 pinturas do comerciante berlinense Johann Ernst Gotzkowsky, dando origem ao Museu Hermitage no Palácio de Inverno. Ao longo do reinado, adquiriu a coleção de Pierre Crozat (1772) e a de Robert Walpole (1779), reunindo milhares de obras de Rembrandt, Rafael e Ticiano.
No campo educacional, fundou o Instituto Smolny (1764) em São Petersburgo, o primeiro colégio estatal para moças nobres, e confiou à amiga Yekaterina Dashkova a direção simultânea da Academia Russa e da Academia de Ciências — a primeira mulher a ocupar tal cargo na Europa. A imprensa também floresceu: o número de periódicos saltou de uma dezena para mais de 400 ao fim do reinado.
A "viagem à Crimeia" de 1787, encenada por Potemkin para impressionar Catarina e os embaixadores estrangeiros, gerou a expressão pejorativa "aldeia Potemkin". Mas as estruturas construídas — palácios, arsenais e até o palácio de madeira de Bakhchisarai restaurado — eram reais, e a demonstração de poder cumpriu seu papel diplomático.
O preço do esplendor: servidão e rebelião
O Iluminismo de Catarina tinha um ponto cego gigantesco: a servidão. Longe de aboli-la, a imperatriz aprofundou a dependência dos camponeses, que chegaram a quase 50% da população rural presa à terra e sujeita à venda sem a família. A contradição explodiu na Rebelião de Pugachev (1773–1775), quando o cossaco Yemelyan Pugachev, fingindo ser o czar Pedro III, mobilizou dezenas de milhares de servos, tártaros e cossacos do Volga. O levante tomou Kazan e ameaçou Moscou antes de ser esmagado; Pugachev foi executado publicamente em 21 de janeiro de 1775, em Moscou.
Curiosidades e controvérsias históricas
O mito da morte com o cavalo é falso. Catarina morreu de derrame cerebral em 17 de novembro de 1796, aos 67 anos, no Palácio de Inverno. A história grotesca sobre o cavalo foi espalhada por inimigos da corte.
Diderot visitou a corte em 1773–1774 e, embora impressionado com o mecenato, registrou sua frustração: "A imperatriz é, sem dúvida, uma déspota em seu coração."
O "Testamento de Pedro, o Grande" — suposto documento secreto ordenando a dominação da Europa — foi uma falsificação forjada na França napoleônica para justificar a guerra contra a Rússia.
A estátua do Cavaleiro de Bronze, encomendada por Catarina a Étienne-Maurice Falconet e inaugurada em 1782, trazia a inscrição latina: "A Pedro I, Catarina II" — a tentativa definitiva de se colocar na linhagem do grande czar.




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