Ramsés II: O Faraó Construtor e o Tratado de Kadesh

Fachada dos colossos de Ramsés II esculpidos em rocha maciça no grande templo de Abu Simbel no Egito.

Durante quase sete décadas (c. 1279 – 1213 a.C.), o Egito Antigo esteve sob o domínio de uma das figuras mais grandiosas da Antiguidade: Usermaatre Setepenre, imortalizado na história ocidental como Ramsés II, ou simplesmente Ramsés, o Grande. Terceiro soberano da 19ª Dinastia, ele ascendeu ao trono na juventude e governou até ultrapassar os 90 anos de idade, moldando de forma definitiva a paisagem arquitetônica, a geopolítica e a memória cultural do Vale do Nilo.

Mais do que um general implacável, Ramsés foi um mestre consumado da propaganda estatal. Ele transformou confrontos militares arriscados em triunfos poéticos eternizados em pedra e inundou o território egípcio com colossos que desafiavam o tempo.

A Máquina de Guerra e a Batalha de Kadesh (1274 a.C.)

No quinto ano de seu reinado, Ramsés marchou rumo ao norte para recuperar o controle de Amurru e Kadesh (na atual Síria), pontos nevrálgicos das rotas comerciais no Levante disputados ferozmente com o Império Hitita.

O faraó dividiu seu exército em quatro corpos de batalha independentes, batizados com os nomes das principais divindades egípcias: Amon, Rá, Ptah e Seth. Confiando em falsos desertores beduínos (shasu) plantados pelo rei hitita Muwatalli II, Ramsés acreditou que o inimigo ainda estava longe e avançou apressadamente apenas com a divisão de Amon para acampar diante dos muros de Kadesh.

A EMBOSCADA EM KADESH
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Hititas (Muwatalli II) | Emboscada com 3.700 bigas pesadas
Divisão de Amon | Pega de surpresa junto a Ramsés II
Divisão de Rá | Despedaçada em marcha ao sul do rio Oronte
O Fator Decisivo | Chegada da tropa de elite dos Ne'arin
Resultado Tático | Impasse com recuo e preservação mútua
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Milhares de bigas de guerra hititas cruzaram de surpresa o rio Oronte, pulverizando a divisão de Rá que vinha em marcha e cercando diretamente o acampamento real. Ramsés combateu com bravura pessoal à beira do colapso, mas a virada que evitou o massacre foi a chegada oportuna dos Ne'arin, uma tropa de choque reserva bem treinada que atacou o flanco hitita.

O combate terminou em um impasse tático: os egípcios não tomaram a fortaleza de Kadesh, e os hititas não conseguiram aniquilar o exército invasor. Contudo, ao retornar a Tebas, o faraó ordenou a redação do célebre Poema de Pentaur e do Boletim de Guerra, mandando esculpir nos templos de Karnak, Luxor e no Ramesseum relevos monumentais retratando a si próprio como um herói solitário guiado pelo braço de Amon.

O Tratado de Kadesh: A Primeira Paz Internacional Documentada

Dezesseis anos após o banho de sangue em Kadesh, o cenário geopolítico do Oriente Médio mudou drasticamente. A expansão violenta do vizinho Império Assírio passou a ameaçar a estabilidade tanto dos hititas quanto dos egípcios.

Diante do perigo comum, Ramsés II e o novo soberano hitita, Hattusili III, selaram em 1258 a.C. o chamado Tratado da Prata de Kadesh. Gravado originalmente em lâminas de metal e em tabuletas de argila cuneiforme, o documento estabeleceu:

  • Cláusula mútua de não agressão perpétua entre os dois impérios;

  • Aliança defensiva de auxílio militar obrigatório em caso de invasão estrangeira;

  • Extradição de prisioneiros políticos e refugiados foragidos;

  • Casamento dinástico diplomático de Ramsés com uma princesa hitita.

Cópias desse acordo foram encontradas nas escavações da capital hitita de Hattusa (atual Turquia), e uma réplica ampliada encontra-se em exibição permanente na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, celebrada como o primeiro tratado de paz bilateral da história humana.

Pi-Ramsés: A Metrópole Militar no Delta

Para apoiar sua política expansionista rumo à Ásia Ocidental, o faraó abandonou a antiga residência real de Tebas e fundou uma nova capital no Delta oriental do Nilo: Pi-Ramsés Aa-nakhtu ("A Casa de Ramsés, Grande em Vitórias").

Estrategicamente localizada próxima às fronteiras com o Sinai e aos canais de navegação, Pi-Ramsés contava com estaleiros navais, gigantescas coudelarias com capacidade para treinar centenas de cavalos e oficinas de fundição de armas de bronze. No seu apogeu, a metrópole chegou a abrigar cerca de 100 mil pessoas antes de ser engolida pela mudança de curso do leito do Nilo séculos depois.

A Monumentalização em Pedra: Abu Simbel e o Ramesseum

A ambição construtora de Ramsés II superou a de qualquer faraó da Idade do Bronze:

  • O Grande Templo de Abu Simbel (Núbia): Esculpido diretamente no arenito de uma falésia rochosa para intimidar os povos núbios e assegurar as minas de ouro do sul. Sua fachada exibe quatro colossos sentados de Ramsés com 20 metros de altura. O eixo interior foi desenhado de forma que, duas vezes ao ano, os raios solares atravessam 65 metros de corredores para iluminar os deuses no santuário profundo.

  • O Templo de Nefertari (Hathor): Erguido ao lado de Abu Simbel em honra à sua amada Grande Esposa Real, Nefertari. Pela primeira vez na arte egípcia monumental, a estátua de uma rainha foi esculpida na mesma escala e altura que a do próprio faraó, quebrando o padrão milenar de retratar consortes aos pés do monarca.

  • O Ramesseum: Templo mortuário monumental na margem ocidental de Tebas, adornado com um colosso de granito caído de mais de mil toneladas que mais tarde inspirou o célebre soneto Ozymandias do poeta romântico Percy Bysshe Shelley.

A Longa Velhice e a Múmia que Viajou de Passaporte

Ramsés II sobreviveu à maioria de seus contemporâneos, filhos mais velhos e consortes. Ele celebrou nada menos que 14 festas Sed (jubileus de rejuvenescimento do poder real), um recorde absoluto no Egito Antigo. Quando faleceu, por volta dos 90 a 92 anos, sofria de artrite severa, arteriosclerose e cáries dentárias graves.

Sua tumba original no Vale dos Reis (KV7) foi saqueada na antiguidade, mas sacerdotes da 21ª Dinastia resgataram seu corpo e o reembalaram no esconderijo secreto de Deir el-Bahari (DB320), onde permaneceu oculto até ser redescoberto em 1881.

Em 1976, a múmia de Ramsés II foi enviada a Paris para tratamento microbiológico contra infestações fúngicas. Por exigência das leis francesas, o governo egípcio emitiu um passaporte oficial para o antigo soberano com a profissão anotada: "Rei (falecido)". Ele desembarcou com honras de chefe de Estado em solo francês antes de passar por tomografias que comprovaram que ele era ruivo natural.

Resumo dos Pontos-Chave

  • Tempo de Governo: Aproximadamente 66 anos de reinado durante o Império Novo (19ª Dinastia).

  • Batalha de Kadesh (1274 a.C.): O maior choque de bigas de guerra da Antiguidade contra os hititas, eternizado pela propaganda egípcia.

  • Tratado da Prata: O primeiro tratado de paz bilateral e recíproco registrado na história mundial.

  • Obras Monumentais: Abu Simbel, o templo de Nefertari, a nova capital Pi-Ramsés e ampliações monumentais em Luxor e Karnak.

  • Sobrevivência Histórica: Múmia preservada no Museu Nacional da Civilização Egípcia, no Cairo, após ter viajado internacionalmente com honras de Estado no século XX.

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